“Minha glicose está alta, mas eu não sinto nada.”
Essa é uma situação comum no consultório e ajuda a explicar um ponto importante sobre o diabetes: é possível ter a glicose elevada sem perceber sintomas no dia a dia.
O mesmo pode acontecer com algumas complicações do diabetes, que podem começar e evoluir de forma silenciosa. Por isso, o acompanhamento do diabetes não deve depender apenas de como a pessoa se sente.
Consultas regulares, exames e rastreamentos fazem parte do cuidado, mesmo quando está aparentemente tudo bem.
Diabetes pode não causar sintomas
Muitas pessoas associam os sintomas do diabetes à sede excessiva, vontade de urinar várias vezes ao dia, perda de peso e visão embaçada.
Esses sinais podem acontecer, especialmente quando a glicose está muito elevada. Mas a ausência de sintomas não significa, necessariamente, que a glicemia esteja dentro da meta definida para aquela pessoa.
Uma pessoa pode permanecer com níveis elevados de glicose durante meses ou anos sem notar mudanças evidentes. Por isso, o diabetes tipo 2 é frequentemente identificado em exames de rotina.
Sentir-se bem não significa que o diabetes está controlado
O controle do diabetes não deve ser avaliado apenas pelos sintomas — nem por uma única medida de glicemia.
Um dos exames usados no acompanhamento é a hemoglobina glicada (HbA1c). Ela mostra uma estimativa da exposição à glicose nos últimos meses e ajuda a avaliar o controle glicêmico ao longo do tempo.
Dependendo do tratamento, também podem ser utilizadas as medidas de glicemia capilar, feitas com o aparelho de ponta de dedo, ou os dados de sensores de glicose.
As metas de glicemia e hemoglobina glicada não são iguais para todas as pessoas. Idade, tipo de diabetes, medicamentos utilizados, risco de hipoglicemia — queda da glicose no sangue — e presença de outras doenças são alguns fatores considerados na definição do tratamento.
Complicações do diabetes podem ser silenciosas
Manter o acompanhamento do diabetes é importante porque a doença pode afetar diferentes órgãos ao longo do tempo, muitas vezes antes do surgimento de sintomas.
Os exames de rastreamento ajudam a identificar alterações precocemente e a orientar os próximos cuidados de acordo com cada caso.
Rins: como o diabetes pode afetar a função renal
A doença renal relacionada ao diabetes pode começar sem provocar dor ou qualquer alteração perceptível.
Por isso, além dos exames de sangue que avaliam a função dos rins, pode ser necessário pesquisar albumina na urina. A albumina é uma proteína, e sua presença na urina pode indicar uma alteração inicial nos rins antes de uma redução importante da função renal.
Olhos: rastreamento da retinopatia diabética
A retinopatia diabética, alteração dos vasos sanguíneos da retina causada pelo diabetes, também pode estar presente antes de provocar mudanças significativas na visão.
Esperar perceber que a visão piorou para só então avaliar os olhos não é uma boa estratégia. O acompanhamento oftalmológico permite identificar alterações mais precocemente e definir quando é necessário acompanhamento ou tratamento específico.
Pés e nervos: prevenção do pé diabético
O diabetes pode comprometer os nervos, principalmente nos membros inferiores. Algumas pessoas apresentam dor, queimação ou formigamento. Outras podem desenvolver redução da sensibilidade nos pés.
Isso é importante porque uma pessoa pode machucar o pé e não perceber adequadamente a lesão. Pequenos cortes, bolhas ou feridas merecem atenção, especialmente quando há perda de sensibilidade.
A avaliação periódica dos pés e da sensibilidade ajuda a identificar quem apresenta maior risco e permite orientar medidas preventivas.
Diabetes e coração: por que o risco cardiovascular importa?
Cuidar do diabetes não significa cuidar apenas da glicose.
Pessoas com diabetes têm maior risco de doença cardiovascular. Por isso, durante o acompanhamento também são avaliados fatores como pressão arterial, colesterol, tabagismo, peso, alimentação e atividade física.
Dependendo do perfil de cada paciente, alguns desses fatores podem ser tão importantes quanto a própria glicemia para reduzir o risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
Atualmente, alguns medicamentos usados no tratamento do diabetes são escolhidos não apenas pelo efeito sobre a glicose, mas também pelos benefícios demonstrados para o coração e os rins em determinados grupos de pacientes.
Quais exames uma pessoa com diabetes precisa fazer?
Não existe uma lista única de exames para diabetes que sirva da mesma forma para todas as pessoas.
O tipo de diabetes, o tempo desde o diagnóstico, a idade, o tratamento utilizado e a presença de outras doenças influenciam quais avaliações são necessárias e com qual frequência devem ser realizadas.
Mais importante do que solicitar uma grande quantidade de exames é manter um acompanhamento organizado, que garanta que os rastreamentos indicados sejam feitos no momento adequado.
Se meus exames estão bons, ainda preciso acompanhar o diabetes?
Sim — e esse é justamente um dos objetivos do acompanhamento regular.
As consultas não existem apenas para encontrar problemas. Elas também ajudam a prevenir complicações do diabetes ou identificá-las em fases iniciais, quando muitas vezes há mais possibilidades de intervenção.
Também é durante as consultas que se avalia se o tratamento continua adequado, se existem efeitos adversos, episódios de hipoglicemia, dificuldades com as medicações ou mudanças no estado de saúde que justifiquem ajustes.
Tratar diabetes é mais do que baixar a glicose
O tratamento do diabetes não deve se resumir a olhar um valor de glicemia e aumentar ou diminuir um medicamento.
É preciso controlar a glicose, proteger os rins, reduzir o risco cardiovascular, acompanhar a saúde dos olhos, cuidar dos pés e abordar outros fatores que interferem na saúde a longo prazo.
Como muitas dessas alterações podem começar sem sintomas, não é recomendado esperar o corpo avisar que algo está errado para procurar avaliação.
Sentir-se bem é importante. No diabetes, acompanhamento adequado e prevenção também fazem parte de continuar se sentindo bem no futuro. Agende uma avaliação para entender o seu caso.