Para muitas mulheres trans, a hormonização por conta própria pode ser uma forma de buscar mudanças importantes para a própria identidade e bem-estar diante de barreiras reais de acesso à saúde. A terapia hormonal de afirmação de gênero é uma etapa significativa para muitas pessoas. Quando realizada sem acompanhamento, porém, pode trazer riscos que frequentemente podem ser identificados e reduzidos com cuidado adequado.
Dificuldades financeiras, ausência de serviços especializados, experiências de discriminação e a dificuldade de encontrar profissionais preparados podem fazer com que algumas pessoas iniciem ou mantenham o uso de hormônios sem orientação médica. Falar sobre isso exige acolhimento, sem julgamento e com respeito às escolhas e à trajetória de cada pessoa.
O problema não é a hormonização em si. A terapia hormonal de afirmação de gênero pode ser uma intervenção importante para pessoas elegíveis. O ponto central é ampliar o acesso à informação confiável, ao acolhimento e a um acompanhamento individualizado.
O que é hormonização por conta própria?
A hormonização sem acompanhamento médico pode acontecer de diferentes formas: utilizar medicamentos indicados por amigos ou conhecidos, comprar hormônios sem prescrição, modificar doses por conta própria ou usar substâncias que não são as mais adequadas para a terapia hormonal de afirmação de gênero.
Também pode ocorrer quando a pessoa utiliza hormônios por anos sem consultas regulares, exames laboratoriais ou avaliação de fatores que influenciam a segurança do tratamento, como risco cardiovascular e tromboembólico. Tromboembolismo é a formação de coágulos que podem obstruir vasos sanguíneos.
O uso de hormônios não prescritos é uma realidade, especialmente quando existem obstáculos para acessar os serviços de saúde. Por isso, é recomendada uma abordagem de redução de danos: aproximar a pessoa de um cuidado seguro, respeitoso e possível, sem punição ou constrangimento.
Dados sobre hormonização sem acompanhamento entre pessoas trans
Durante meu trabalho de conclusão de residência, avaliei dados de 222 pessoas trans acompanhadas em um serviço especializado no Ceará: 119 homens trans e 103 mulheres trans.
Um dos resultados que chamou atenção foi a frequência de início da hormonização por conta própria.
62,6% das pessoas avaliadas haviam iniciado a hormonização sem acompanhamento médico.
Entre as mulheres trans, essa proporção foi ainda maior: aproximadamente 80% haviam iniciado o uso de hormônios sem supervisão médica.
Além disso, mais de 90% das mulheres trans que já utilizavam hormônios antes de chegar ao serviço especializado faziam uso de preparações consideradas inadequadas para a terapia hormonal de afirmação de gênero.
Esses dados não indicam irresponsabilidade. Eles ajudam a compreender o impacto das barreiras de acesso ao cuidado especializado. Quando uma pessoa deseja viver o próprio corpo de forma mais alinhada à sua identidade e não encontra um serviço acessível e acolhedor, é compreensível que busque outras alternativas.
Por que o acompanhamento médico na hormonização é importante?
A terapia hormonal de afirmação de gênero, quando indicada e acompanhada adequadamente, pode contribuir para a saúde e a qualidade de vida. O acompanhamento médico busca construir, junto com a pessoa, um esquema que respeite seus objetivos e reduza exposições desnecessárias a doses elevadas ou medicamentos inadequados.
Nas mulheres trans, o tratamento costuma envolver estradiol e, quando indicado, uma estratégia para reduzir a ação da testosterona. A escolha do medicamento, da dose e da via de administração depende de diferentes fatores, como idade, histórico pessoal, uso de outros medicamentos e risco cardiovascular ou tromboembólico.
Os anticoncepcionais, muito utilizados na hormonização por conta própria, não são recomendados pois possuem altas concentrações de estrogênio na sua forma sintética (etinilestradiol). O que sabidamente está associado a um maior risco de eventos trombóticos e cardiovasculares.
O objetivo não é limitar a autonomia da pessoa, mas oferecer informações e opções que permitam decisões mais seguras e alinhadas às suas necessidades.
Exames e consultas também fazem parte da hormonização segura
A consulta não serve apenas para iniciar ou renovar uma prescrição. Ela é um espaço para conversar sobre expectativas, acompanhar os efeitos da terapia hormonal, ajustar doses quando necessário, identificar possíveis efeitos adversos e reavaliar fatores de risco ao longo do tempo.
O acompanhamento clínico costuma ser mais frequente no primeiro ano de tratamento e após mudanças de dose. Conforme o esquema utilizado e as necessidades individuais, a avaliação pode incluir dosagens de estradiol e testosterona, além de exames como função dos rins e do fígado.
Também é importante conversar sobre pressão arterial, tabagismo, peso, saúde cardiovascular, risco de tromboembolismo e outros aspectos que podem interferir na segurança do tratamento. Essas conversas devem acontecer de forma respeitosa, sem culpabilização e considerando a realidade de cada pessoa.
O que fazer se a mulher trans já usa hormônios por conta própria?
Para quem já está em hormonização por conta própria, buscar atendimento pode ser um passo importante. Esse cuidado não deve partir de uma ordem simples para interromper tudo, nem de julgamentos sobre como o tratamento foi iniciado.
A suspensão abrupta dos hormônios pode não ser a melhor conduta e pode provocar sofrimento importante. O mais adequado é compreender o que está sendo utilizado, em qual dose, há quanto tempo e quais são os objetivos da pessoa.
A partir dessa conversa, é possível avaliar riscos, solicitar exames quando necessário, corrigir o esquema e construir um acompanhamento mais seguro.
Ninguém deve se sentir constrangida por procurar ajuda depois de ter iniciado hormônios por conta própria. O cuidado em saúde pode começar em qualquer momento.
Hormonização segura para mulheres trans é uma questão de acesso à saúde
Hormonização segura não significa hormonização proibida. Mulheres trans não precisam escolher entre usar hormônios sem orientação e deixar de acessar uma terapia importante para seu bem-estar.
Existe uma terceira possibilidade: um tratamento individualizado, baseado em evidências, que respeite os objetivos da pessoa e reduza riscos desnecessários.
Se você já utiliza hormônios ou deseja iniciar a hormonização, agende uma avaliação para entender o seu caso e discutir opções de cuidado adequadas às suas necessidades.